7 de jun. de 2017

Crônica Artificial 0.6.0



Arquivo Humano
[Impromptu]


            No alto do prédio do Arquivo Humano, o jovem O. Luan de Freud apoiava a testa contra o vidro do ateliê, observando o pôr-do-sol com expressão furiosa. Na mão direita, um copo de uísque tilintava, movendo-se no gesto circular que o punho fazia. Diante dele, por conta da grande altitude em que se encontra a Cidade Suspensa de F., a parede transparente revela um horizonte imenso por sobre as nuvens. Grande extensão de terra visível, que cobriria mesmo um dos gomos do mundo, se o mundo fosse uma tangerina. Nisso o rosto do rapaz serenou, e ele passou a ponta dos dedos sobre o ouvido, tirando dali os longos cabelos negros. Segurando uma das mexas diante de si notou, com um suspiro, um fio de cabelo branco, e o arrancou num gesto brusco.

            Voltando-se para dentro O. deu com o amplo estúdio em concreto, que parecia iluminado pelas chamas. A tal parede de vidro, que tomava toda uma ala do salão, àquela hora ficava vermelha como brasa, borrifando um brilho rubro sobre os objetos. A poltrona, o divã, a escrivaninha antiquada, abarrotada de livros, o balcão de trabalho com as tintas e pincéis. Mas o olhar de Freud evitava um ponto específico do lugar, fugindo à visão de uma grande tela, alguns passos à sua esquerda. Olhando para o chão com os olhos fechados e engolindo em seco, O. deu um gole na bebida e se voltou bruscamente para o quadro, arregalando os olhos. Boa parte da pintura era uma representação do espaço sideral, polvilhado de estrelas, que eram, na verdade, minúsculas galáxias, cada qual com sua cor e formato. Mas no centro da ilustração, emergindo do abismo, um monstro balofo e disforme, com quatro pares de patas, se curvava no vácuo, expelindo pela traseira uma espiral de matéria leitosa. A imagem era perturbadora. Freud se aproximou da tela com expressão sofrida, como se fosse um estranho que a visse pela primeira vez. Ele toma outro gole e continua observando, em silêncio. As emoções vão se sucedendo em seu rosto, em transições que vinha sempre depois de um gole: agora apreensivo, depois frustrado, então raivoso, e por fim feliz. O copo estava vazio. O. colocou-o sobre um móvel, cruzou os braços e deu uma gargalhada longa, inclinando o tronco para trás, como um vilão histérico. Seus olhos brilhavam, vertendo um par solitário de lágrimas de riso, que limpou com a ponta dos dedos:

- Xangô, meu rei, me salva. Imagina eu apresentando meu cosmos lá na Convenção de HQ? Aqueles nerds vão me devorar vivo… O que é que eu vou dizer disso?  

            Freud apanha a garrafa acobreada sobre o balcão e se serve de mais. Enquanto bebe um gole lento, olha mais uma vez para o monstro sideral:

- Ah, eu vou dizer que els habitam nuvens de hidrogênio... [risos] Bicho, que vergonha… Mas vou dizer que elas habitam as imensas nuvens de gás lá, no infinito!  Que elas absorvem daí tudo que é preciso pra minha ficção funcionar [gole - exaltado]. Mas por que Isso tem tantas mãos e o corpo rasurado e tosco desse jeito? Eles vão perguntar, e eu vou responder: porque é um tardígrado! Um urso d’água dotado de linguagem, modificado pra sobreviver de forma independente nas fronteiras do universo! [risos - gole] E como Isso faz pra comer, pra se locomover, pra se reproduzir no vácuo? Que bobagem... Aí, eu respondo: bobagem não! Eles se propalam no vácuo emitindo gás pelo ânus… [gole] Elas também produzem teias super resistentes... E casulos! Gigantescos cocoons, lá dentro os pequenos são criados e aprendem as coisas... Tá bom pra ti, nerd?! [risos - gole] Mas se só tem hidrogênio na parada, lá nas nuvens de hidrogênio, como é que esses bichos vão se alimentar? Vão formar o corpo a partir do quê, de que comida? Perguntam lá na Comissão de Quadrinhos, e aí vou responder: olha, nesse momento vocês precisam ter um pouco de boa-fé, meus queridos nerds, por favor... Tão vendo essa esfera translúcida na cabeça do tardígrado? Esse círculo perfeito, onde se vê o córtex flamejante e o par d’olhos flutuantes da criatura? Então, ali dentro tem uma nano-estrela, estrela minúscula que, a partir do hidrogênio, sintetiza materiais mais complexos. Uma usina de fusão nuclear na cabeça. [risos] Sabe aquela música antiga? You’re a shooting star, I see. A vision of ecstasy...
                                     [tu és uma estrela-candente, eu vejo. pura visão do desejo...]       [gole súbito - continua exaltado]

- Uma usina dentro da cabeça?! Ai, que merda, pintor. Que bosta de ideia essa aí... [joga-se sobre o divã] Tu pirou, parceiro? Tá loco, mano? Enlouquecesse, foi? Tás tolo? [fechando os olhos e balançando a cabeça com um sorriso] É que, querides, quem trabalha com cultura, quem chupa do universo esse caldo infinito!; a gente transforma essa cultura, praticamente, num mistério pra nós... O mistério da cultura nas nossas vidas, não é verdade?  [baixando os olhos, expressão aborrecida] Por mistério a gente quer dizer uma atividade que se faz com , tipo, puta que pariu...

            Deixando a mão cair ao longo do corpo, O. deu com uma argola de prata finíssima, que estava ali no chão, e a levantou diante dos olhos:

- Uma tiara de prata, isso sim... Voyage, voyage, sur l'eau sacrée d'un fleuve indien... Et jamais ne revient[viajar, viajar, sobre as águas sagradas de um rio indiano... e nunca voltar [todo ano]]  Nossa, será que mergulho na Dip Web doidão desse jeito?...  [suspiro] É até melhor. Esse negócio de navegar dormindo ao mesmo tempo é muito louco, só dá trapalhada, ninguém se acostumou com isso ainda não. E teve aquele cara que mergulhou e nunca mais voltou... Mas vamos lá [colocando a tiara na cabeça], é só assumir posição relaxada, mãos e pés livres... [inspira fundo] Agora, de olhos semicerrados preciso olhar pra um ponto fixo que se encontra exatamente na ponta do meu nariz... Isso, apareceu a estrela azul contra um fundo negro, a voz do Envoy tá perguntando o password, eu respondo em voz alta: Estrelanus-Lazuli. E aí é só... [ronco]   
                      

This is the sound of my soul
[som d’alma]


            Freud se viu num amplo estádio de pedra, cujas escadas convergiam pra uma arena circular, coberta de água até as canelas. Lá no alto, o sol do meio-dia alinhava-se com todas coisas, e a sombra de O. desapareceu debaixo dele, como um círculo negro na água. O estádio parecia estar completamente vazio, não fosse um imponente Cavalo Branco, que se encontrava no outro extremo do palco, e olhava para O. com a cabeça levemente inclinada, como que se perguntando o que aquele homem fazia ali. Os dois caminharam em direção um ao outro, Freud não conseguia conter o sorriso ao ver tão lindo alazão cortando as águas numa passada elegante, como se fosse o dono do mundo. Que lindos os cavalinhos, o deus-escravo da humanidade! Pensou, mas nada disse, com medo de espantar o animal.

            Ambos se aproximaram com confiança, e O. estendeu a mão para tocar o rosto do bicho, que afastou a cabeça, fazendo um gesto de negativo. Qual não foi a surpresa de Freud quando o cavalo falou, só que não falou no idioma do moço, e sim numa linguagem especial de cavalos, com relinchos, guinchos, toques de pata no chão, sopro entre os lábios e pelas grandes narinas. Apesar disso, O. compreendeu a linguagem do cavalo sem dificuldades, e se espantou profundamente quando percebeu que era capaz até mesmo de responder:

- Quem és tu? Onde moras? - perguntou o animal olhando-o nos olhos à maneira dos cavalos, ora com a vista direita, ora com a esquerda:

- Eu sou o O., mas não moro aqui não. Parece que ninguém mora aqui... - respondeu Freud em língua de cavalo.

- É bem verdade, que desperdício obsceno... Mas tu és bem observador para um estúpido yahoo, como pode? Pois não tiveste medo, vontade de fugir de mim? 

- Não, não tive não senhor.

- Houyhnhnms! Houyhnhnms! Houyhnhnms! - urrou o cavalo erguendo-se sobre as patas traseiras. Ao que Freud não esboçou reação:

- O senhor está bem?

- Hunf, qualquer outro yahoo já estaria gritando e correndo, mas tu não.

- Sou um grande apreciador da tua gente, amigo, venho em paz. 

- Sei, agradeço a cortesia e me desculpe pela cena... [bate com o casco duas vezes]  Mas essa arena não foi construída por nós, Houyhnhnms, não, nunca. Isso é um palco dos divertimentos sujos dos yahoos. Gostaria de sair daqui...








- Eu também amigo, eu também gostaria de... Mas o que é aquilo voando lá no céu, meu senhor? Aquilo vem nessa direção atravessando as nuvens, parece um helicóptero, mas, não pode ser, não, que horror, o horror... Mas aquilo é um Mosquito Gigante?! [ambos arrepiam-se de cima abaixo]

- Não é coisa que se veja todo dia, não é, yahoo? Só que aquilo não é um mosquitão, como tu disseste, mas sim o Anjo da Morte, que vai passar pela Cidade sem nos beijar.

- Puxa, eu não saí de casa pra ver Anjo da Morte nenhum não, bicho, que bad...

- Como assim? Tu não sabias que a Cidade toda ia ficar sem Água? Teria sido uma Grande Tragédia, os antigos alertaram, mas por sorte não aconteceu. O Anjo da Morte apenas passou por nós, sem nos beijar com seu proboscídeo sangrento... E agora lá vai ele lá, olha, voando embora trás dos montes, hunf, vá de retro...

- Esse barulho de pernilongo me enlouquece... [abaixa-se e cobre a cabeça com as mãos]

- Pronto, aquilo já foi, yahoo. Mas precisa tudo isso? Vocês primitivos são uns ouvidos fracos mesmo, pois aquele mosquitão não me assusta nem um pouco, ele que venha aqui embaixo! Hunf...    

- Preciso tirar a gente daqui... O senhor gostaria de uma manga madura?

- Tu tens uma manga aí?!

- Não. Mas penso que lá fora pode ter. Venha, senhor, me siga, por favor, eu vou abrir a cancela e a gente sai desse lugar. O senhor vem? Isso... Agora cuidado com o degrau pra sair da água: pronto. Por aqui, a gente atravessa e túnel e desce aquela rampa. Mas diga lá, o senhor, seu Houyhnhnms, prefere manga, sal ou espiga de milho?

- Puxa, aí tu me pegaste, yahoo, depende muito do clima, sabe. Mas o desejo tem que estar sempre afinado com as necessidades, pois um dos pilares da Sociedade Equina é uma dieta equilibrada.

- [declamando] “Não há melhor comida, casa ou cama que a nossa grama, que a nossa grama.”

- Ah, então tu conheces nossa poesia! Que ladino és, yahoo, o mais brilhante que já vi. Admiro-te.

- Muito obrigado, meu senhor! Mas veja, estamos chegando na saída do túnel. Por favor, vá na frente, mas... Não, espera, melhor eu ir na frente, não é verdade?

- Sim, prefiro que os yahoos fiquem na minha frente, se não se importa. Posso ter um reflexo e coicear, não sei. Nós Houyhnhnms temos muita energia, sabe?

- Bem sei, meu senhor, então eu vou na frente, licença... [correndo]

            O estádio era rodeado por um grande gramado, com um par de quilômetros de extensão. Nas bordas, quando acabava o capim, uma grande floresta tropical circundava tudo como uma muralha. O. continuou correndo pela grama ensolarada com um sorriso no rosto, sem ofegar ou diminuir o passo, pois dentro da Dip Web as pessoas são projeções e não se cansam. Nisso o grande Cavalo Branco emparelhou com o moço na corrida e, voltando-se pra ele perguntou:

- Bom, yahoo O., e agora, onde está minha manga?

- Vamos primeiro chegar até as raias do campo, na boca da mata, meu senhor. Tenho certeza de que lá vamos encontrar manga que lhe agrade... Ah, como é bom correr assim!

- Hunf, correr é até bom, mas também não é tão bom assim, a gente faz isso toda hora. Vocês yahoos é que são uns abobados, tentando galopar com essas patinhas pequenas, moles...

- [rindo] Sem dúvida, meu senhor, sem dúvida! Olha, chegamos na mata, mas... Tu enxergas algum fruto, senhor? Sentes o cheiro de algo?

- Nada, só farejo bugios, aranhas e cocô de yahoo... Tu me prometeste uma manga, onde está?!

- Mil desculpas, meu senhor, achei que a sorte iria nos ajudar mas parece que, dessa vez, ela não ajudou.

- Hunf! É isso que dá dar trela a yahoo... [bufa - bate com o casco na grama três vezes] Então, vou me embora, adeus. Ah, e tu deves voltar pra o centro, yahoo, aqui não é lugar pra ti, e a noite cai depressa por esses lados. Fui-me!

            Disse o Cavalo Branco saltando por uma trilha pra dentro da mata. Freud fez menção de acompanhá-lo, dando um grande salto naquela direção, mas se conteve, porque aquela não era uma mata ordinária: ela mudava de forma. Os galhos cresciam, virando tentáculos, serpentes e vermes, enquanto as folhas mudavam em rostos de animais, olhos gigantes, insetos. Pássaros pousavam e se transformavam em frutas, que caiam mudando em lagartos e roedores. Tudo numa profusão estarrecedora e repugnante. Por isso O. recuou um tanto contrariado, dizendo:

- Ah, vá cagar, cavalo... - e correu de volta para o centro.








Nous Mourrons Tous Inconnus
[nós morreremos todos desconhecidos]


           
- Eita, vida danificada! Essa vida nossa está com defeito, viu... - resmungou O. Luan de Freud enquanto corria nu, no gramado, no meio da noite. O céu ainda estava entre o violeta e o negro, e apenas as estrelas mais brilhantes despontavam com intensidade. Lá na frente, colado ao horizonte, o Cruzeiro do Sul apontava para a grande construção às escuras de onde saíra com o cavalo, e Freud engoliu em seco quando parou diante do portal:

- Cheguei, mas não sei se quero entrar aí não, que breu... Olha, acendeu um letreiro luminoso no topo da entrada, o que diz? O mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres... Que estranho, eu hein.

            Em seguida um foco de luz acendeu no fim do longo corredor, bem no centro da arena, e iluminava o grande Cavalo Branco, que esperava batendo as patas dianteiras na água e agitando a crina contra o vento. O. teve uma excitação súbita e, sorrindo, correu na direção do cavalo, corredor adentro. Qual não foi sua surpresa quando todas as luzes se apagaram e, cruzando os braços sobre o peito, rangeu os dentes na escuridão. Um instante depois luzes se acenderam, mas Freud já não estava mais nos corredores da arena alagada, e sim nos subterrâneos de uma estação de metrô.  

            O. respirou fundo e olhou em redor mais uma vez, já não estava mais nu, mas ainda assim não se sentia confortável. Olhou para baixo, para si, apalpando o próprio corpo, e não pôde reconhece-lo. Vestia um par de chinelas de dedo e uns shorts jeans, que julgou curtos demais. Tocando o próprio peito, súbito, lhe veio a consciência do que havia acontecido, e seu olhos arregalaram. Antes, porém, que tivesse tempo pra formular pra si mesmo, uma voz de mulher gritou por ele do alto de um lance de escadas concreto, no fim do corredor emborrachado. Dizia a voz:

- Oh, Freud! Vem aqui, meu nego. Vem ati...

- Mas tu és... [engasga-tosse] Mas tu és o Peri, não é verdade? O cavalinho corredor de agora pouco?

- Eu mesma! Meu bem, eu preciso que ocê saia daí pra gente conversar, eu não posso descer no metrô não, senão eu mudo de forma, meu amor... Sou amiga de Leaju, de L., de M., do...

- Eu sei quem tu és, tranquilo, só não acredito que tu fizeste isso comigo, bi, me transformar em...

- Vem aqui fora!

- Tô indo, pronto. Mas, Peri, tu és uma guria?!...

- E tu também! Aqui na Dip Web a gente se monta no completo, bem, a gente pode ser outra e de boa... Mas vem, sobe, sobe, olha como a rua tá cheia aqui na Ilha: é carnaval!







- Carnaval na Ilha? [subindo] Mas é a ilha da superfície, correto?

- Sim, claro que é a ilha da superfície, onde mais? Tô aqui de visita, venho quase todo ano. E aí? Me dá um abraço, querida, as meninas falam d’ocê  toda hora, fiquei curiosa demais pra te conhecer. Ah, e obrigado pela paciência, quer dizer, passar por tudo isso só pra gente poder se encontrar aqui. Espero que meu sonho não tenha te broxado muito.

- Pois é, tu és complicada de encontrar, hein? Mas foi tudo bem, teu sonho foi bem interessante. Tu lembras de alguma coisa que aconteceu agora pouco?

- Lembro de nada, não sou boa pra lembrar de sonho. Mas se ocê me contar eu vou saber.

- Depois eu conto então. [olhando em redor] Veja só, então aqui não é a ilha de F., ao invés é a ilha lá da superfície.

- Exato, mas é a ilha da superfície da minha época. Porque eu sou de uma outra época, ocê sabe, num sabe?

- Sim, claro, as meninas me alertaram: o Peri é de outra época. Sei, sei. Mas pra mim é até bom, o XXI não me desagrada não, e pra mim é uma chance de aprender umas coisas, reparar no que não vi... Ah, o cheiro de mar! Areia na calçada de pedra, o vento batendo na folha das árvores. Tu sabes que fico anos sem ver isso? A gente só vê natureza estrangulada lá no centro. E pra que lado é o mar?

- Seria pra lá, lá na esquina, mas hoje não tem mar porque não fiz o mar, bi, desculpa. É que fiz tudo meio Impromptu, sabe? De Improviso. [risos]

- Tem nada, Peri. Pois todo o resto tá tão bem feito, tão bom. Então tu e eu somos pessoas do sexo feminino então.

- Sim, ocê se parece muito com uma amiga minha, uma moça ágil, poranga, de espírito aventureiro.

- E tu te pareces com quem, Peri, já que tu também não és tu mesma aqui na Dip?

- Pareço com uma outra amiga minha também, só que essa tem um ar mais intelectual e contemplativo. De propósito ela não é indígena como eu, mas se ocê procurar bem vai encontrar traços profundos né... Olha aqui nós duas refletidas na janela do carro: ocê tem o cabelo anelado! Sei que na vida real, na verdade, teu cabelo é escorrido, comprido, preto. O meu também é.   
   
- [mexendo nos cabelos diante do vidro] Eu fazia isso quando era adolescente, vir aqui com persona feminina e era maravilhoso, engraçadíssimo, mas depois parei, não sei porquê...

- Vem, vamos tirar uma foto nesse vidro de carro, olha, uma foto na praia! [passa a mão sobre o ombro de Freud - enquadram-se no reflexo na janela - sorriem] Pronto, ficou linda, obrigado por viver seu passado comigo de novo, cara, sei o trabalho que dá.

- Que nada, tá tão bom aqui...

            Pelo outro lado da rua, no canteiro central, um grupo de caras, vestidos para a praia e o carnaval, se aproximavam carregando latas de cerveja. Subitamente começaram a fazer uma arruaça, gritando e se empurrando, e foram vindo para o meio da rua, pra perto de onde as moças estavam:

- Hum, olha elas! Tão sozinhas? Tá sozinha? [aproximando-se e fechando a roda] Mas que delicia essa vietcongue aqui, você não usa calcinha não, você usa porta joia. [risos]

- Tu é sempre assim ou tá fantasiada de gostosa, loira? Vem aqui, princesa, me dá um beijo aqui, tenho uma coisa pra você segurar... [risos - encurralam as duas contra a parede]      
 
- E aí, Peri? E agora? Não quero saber disso não, bicho...

- Claro, desculpa Freud, culpa minha. É que eles estão programados pra fazer isso. É só estalar o dedo perto do ouvido deles que eles ficam hipnotizados que nem frango, olha isso. [estala o dedo e um dos rapazes arregala os olhos, olhando pro alto - repetem o processo com todos]

- Hum, tu és cheia de cenas, não, Peri? E agora.

- Agora é só mandar cagar: vá cagar.

            Nisso os homens dispersaram, cada qual pra um lado: dois saíram de mãos, dois abraçados, e uma dupla correu, disparando para cada lado em grande velocidade:

- Allora, mister Freud, a nossa conversa vai ser num ponto de ônibus aqui do centro, porque ali naquele ponto a calçada recua pra dentro do terreno, como se fosse o estuário de um rio... Mas esse ponto de ônibus fica na frente de um templo feio, só pra situar quem já esteve aqui na ilha.

- Eu nunca estive, mas deve ter mudado muito nesses anos todos... E onde é o tal ponto, esse templo feio aí, tu disseste que a calçada recua ali que num rio? Tua louca. [risos -  andando]

- A gente tenta né, e ficar louco nesse mundo é fácil, é só deixar rolar... Mas é logo aqui em frente, O., depois desse paredão de prédios, o famoso: Paredão.

- Nossa, mas porque faziam os prédios tudo coladinho um no outro desse jeito?

- Assim um prédio aproveita a parede do vizinho e fica mais barato de construir. Seria uma questão energética, não é?

- Energética, Peri? Mas olha isso, é uma parede contínua que não deixa os elementos circularem. Criou esse corredor estreito, esse túnel de vento, que deve ser congelante no inverno e um forno no verão.  

- Exato, Freud! Aqui na ilha as coisas vão acontecendo umas em cima das outras e a gente vai tentando se adaptar. Construindo o nosso inferninho né, corredores de vento, a destruição do mangue, o esgoto no mar, a derrubada de prédios históricos na maior e... Ali o ponto! Mas já te aviso que tem um cara ali, esperando o ônibus, que ocê conhece muito bem...   
  
- ...








Arte dei Tagliapietra
                                                                                      [cortapedra]


            Ali, um pouco depois do poste, a calçada recuava para dentro do terreno, formando uma espécie de seio ou de sino, que era o tal estuário na rua, referido por Peri. Ao se aproximar do ponto de ônibus que estava ali, diante do templo feio, as moças tomaram um susto e deram-se os braços, cobrindo o rosto pra não rir. É que sentando, esperando com as mãos nos joelhos, estava um rapaz que não era ninguém menos senão o próprio O. Luan de Freud, melhor dizendo, uma projeção exata do moço, desenhada por Peri. Elas passaram diante dele, que ergueu um olhar desconfiado, apenas num relance, e em seguida voltou aos próprios pensamentos, de bot computacional. As moças riram:

- Cara, o que é isso?! Sou eu mesmo, olha: é ela, é ela!

- Shhhh... [sussurrando] Não dá pala, bi, tem umas palavras-chave que fazem ele se aborrecer, digo, ocê se aborrecer né [risos]. É só não abusar que ele fica ali, não espanta o...

- Não acredito que tu fizeste isso, bicho. Olha só ele...

- [tosse - tosse]

- Quer dizer, ela né, ela é igualzinha a mim, tu tens mãos de fada pra desenhar esse povo, Peri.

- Que isso, são seus olhos, mona... [risos] [gritando] Ah, mas ela se acha a pura né! A santa!

- Ela quem?

- Como quem? A fulana, bem... [apontando]

- Ah, sim, claro. Ela se acha o último pacote de bolacha. [risos]

- Não é assim bi, é ao contrário, é o último biscoito do pacote. [tosse] Mas ela, essa daí, ela não vale nada. Trabalha de graça! Quem ela pensa que ela é? Todo mundo se fodendo, lutando que nem doido pra se manter, e ela fica fazendo a louca? Dando os trabalhos de graça? Que raiva, que desprezo por essa idiota, sua idiota. Na verdade, eu tenho dó disso aí, sabia?

- [sussurrando] Peri, é bom tu parar, parece que eu, que ele tomou as dores pelo que tu estás falando aí...

- Oi? Não esquenta com ela não, isso aí não faz nada pra ninguém, coisa nenhuma. Ela não fala nada, ela não tenta nada. Nada, nada... O apelido dela é Quase-Nada, que nem o vilão do seriado mexicano.

- , agora eu fiquei nervoso, olha lá, porque tu não paras com isso?

- Ocê não entende, Freud? Ela é um escravo. Um escravo, um escravo bugre. Indiazinha...

- !!!

            Nisso o bot se levantou do ponto gritando palavrões e voltou pelo mesmo caminho por onde as moças vieram. Passando por uma garrafa, chutou-a longe:

- Nossa, que nervosinho que eu sou hein, Peri, e que vândalo. Por que o programa chutou a garrafa daquele jeito? Eu não faria isso não.

- Claro que não, ocê não faria isso, Freud, eu sei... [fecha os olhos]  Não consigo modificar-me... É o que mais me aflige.

- É foda... Obrigado mesmo pela demonstração, jogador. Só que tu sabes que todo mundo passa por merdas assim na vida, então não sei bem o que te dizer... [suspiro - silêncio] Mas e aí, como andam as coisas aqui na superfície, mano? Tirando essas orgias sem tesão aí né. [risos]

- Ah, vai tudo diminuindo por aqui, a gente sente no ar... Acho que por isso eu tenho me sentido muito impelido pro passado, sabe, empurrado pro passado. Todo mundo aqui tá se sentindo assim, só que ninguém quer voltar pra aquilo não.

- Tu dizes que o pessoal não quer voltar pra onde, Peri?

- Voltar pro passado.

- Até porquê é impossível voltar no tempo né. Só é possível voltar no tempo assim, quando tu desenhas um programinha e a gente entra pra ver.

- Mas tem um outro jeito também, de voltar, sabe, Freud, e eu vou ter que tentar. Não dá mais pra adiar isso.

- E a escrita, como anda, Peri? Tu andas escrevendo ou o quê.

- Sim, tô escrevendo nesse momento, aliás, uma história muito boa, espero que fique boa.

- Tem que ver com o Anjo da Morte em forma de Seca que tu me mostraste agora pouco?

- Não, isso aí foi só um susto. É que a Seca seria um desafio pra comunidade inteira, e isso me deixou ansioso na época, não só eu... Mas minha história não é sobre isso não, minha história é sobre trabalhar com o barro, moldar no barro.

- Moldar o barro, mas pra fazer o que, Peri?

- É que moldar no barro é como manipular as fezes, sabe? Trabalhar os reprimidos da minha sexualidade amassando um monte de merda, assim, muita bosta, muito cocô. [faz gestos - risos]

- Quero ler essa história aí depois.    

- Ah, claro, Freud, quando ocê tiver um tempo. Assim ocê valoriza meu trabalho um pouquinho, porque o pouquinho de mais-valor que eu investi ali me custou sangue, suor e lágrimas! [risos] Não existe almoço de graça né, se ninguém me paga pelo meu trabalho, quem está pagando sou eu... Com todo ser humano é assim, o taxímetro tá rodando pra todos.

- Sei, boa sorte, então, mano.

- Mas ocê é um artista, não é, Freud? Ocê produz objetos, quadros não é, e como é isso? Ocê consegue vender as peças?

- Consigo.

- ...

- É que já existe uma máquina, uma estrutura pra absorver essas coisas, uma indústria de valorização de objetos e... [suspiro] Mas é sempre uma corda bamba, instabilidade financeira total, com momentos bons, outros ruins. Daí é preciso emprestar pros companheiros, pedir emprestado pros amigos, parentes, etc... Mas essa é a vida que a gente escolheu.

- Mas ocê tem algum contrato, Freud? Algum contrato que te proteja?

- Nossa, parece que tu adivinhasse, bicho, pois meu contrato com o Arquivo Humano está pra terminar, e vou ter que sair do ateliê.

- Que pena.

- Sim, eu gosto tanto de lá. Também existe a possibilidade das diretoras renovarem minha residência, mas não depende somente delas. Eu tenho que ser avaliado por umas pessoas da Comissão de Quadrinhos, e esse pessoal é impossível de agradar, são uns racionalistas ferrenhos, grandes cérebros...  








    
- Comissão de Quadrinhos? [risos]

- Sim, qual a graça? Eles são a instituição mais respeitada dentro da faculdade de belas artes e... Ah tá, é que tu não sabes nada do meu tempo, não é, Peri?

- Não sei não, sorry. Tentei explicar minha situação pra Leaju dá última vez e não pegou nada bem, melhor ficar quieto. Na verdade, sou uma pessoa muito quieta, a maior parte do tempo eu estou quieto e não é todo mundo que me aguenta, que tem paciência com isso.

- Eu não me importo, Peri. Não é todo mundo que mostra a um estranho tudo o que tu me mostraste hoje, foste muito generoso, obrigado por me receber aqui, amigo.

- Amigo, sim! Um amigo... [cantando] Olá, como vai? [risos]

- Eu vou indo e você, tudo bem? [cantando]

- Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você?

- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe... [risos]

- Mas sabe o que eu queria te pedir, Freud? Pra perguntar se o S. Açorian não gostaria de vir aqui na Dip pra me visitar. Ele mergulha?

- Olha, que eu saiba pra algumas coisas ele é que nem você assim, meio antiquado, mas eu posso... [barulho no estômago - pum] Nossa, desculpa mano, peidei! [risos] Mas isso é normal aqui na projeção?

- Não é normal não...

- [pum - risos] Amigo, peido pesa?

- Acho que não, amigo.

[abrindo a boca] Vish, então me caguei, tô com piriri! Diarreia mesmo, preciso ir no banheiro já.
- Mas não era pra você ter essas reações física aqui não, Freud. Deixa ver, ocê bebeu antes de mergulhar aqui?

- Se eu bebi? Bebi o quê?

- Ocê ficou bêbedo antes de mergulhar?

- Eu bebi um pouco... Quer dizer, bebi sim.

- Então ocê tem que acordar agora porque ocê tá pra vomitar lá em cima. Vamos, dá o braço aqui, a gente tem que ficar no meio da rua, não existe carro aqui. [andando]

- Não consigo mais segurar, merda...

- Não segura não, Freud, põem isso pra fora! Não tem problema, só vira a cabeça pro lado e deixa descer, mas vira a cabeça pra lá.

- Ai, que nojo, porra! [risos] Nossa, eu sou o bêbado chato né, bêbado chato, hoje fui eu.

- Não tem problema, pelo menos ocê não saiu andando por aí e me deixou aqui sozinha... Bi, agora tu deita no chão bem aqui, pronto. Então, Freud, ocê precisa ir pela saída rápida do programa, que é caindo pra cima. Ocê já caiu pra cima aqui na Dip?

- Claro que não! [deitando] Ai, que merda, não gosto desses medinhos de montanha russa, eu passo.

- Mas precisa ser, Freud, senão ocê pode se afogar no vômito, olha que coisa triste.

- Vamo lá, Peri, me manda pra lá logo, e desculpa, mano.

- Descurpa eu, irmão... Mas fala com o S. por mim, por favor.

- [positivo]

           
            Nisso o mundo se inverteu, e Freud se desprendeu do chão como se antes estivesse preso por cordas. Seu corpo se projetou no vazio, com braços e pernas vergados pra traz. Mais adiante, no seu caminho, surgiu uma grande nuvem de chuva, negra e carregada, e Freud sumiu dentro dela com um clarão de relâmpago.

            Caindo do divã sobre o tapete felpudo, o rapaz fez uma careta e abriu os olhos, empapado no próprio vômito. Atirando a tiara sobre a mesa ele se arrastou pra o banheiro através do salão, prostrado como se vestisse uma capa de chumbo.

            O amplo banheiro lembrava um pequeno templo de mármore negro. A um canto, colada à parede de vidro que dava para o abismo, uma banheira de fundo azul borbulhava com partículas florescentes. A água fumegante permanecia sempre na mesma temperatura, por conta de processos bioquímicos. Freud tirou a roupa com os olhos meio fechados e rastejou para dentro d’água como um jacaré. Em seguida começou certa efervescência, pois agentes biológicos estavam devorando a sujeira que havia nele.

            Freud parecia exaurido, e foi se deixando escorregar pra dentro da banheira, até que a água lhe cobrisse a boca e o nariz. O olhar triste procurou à esquerda e à direita, sem encontrar, enquanto lágrimas furtivas brotavam. Nisso ele borbulhou, afundando completamente.

            Um minuto e meio depois O. emergiu das águas com violência, em busca de fôlego, e seus olhos estavam vidrados, o peito arfante. Em seguida teve um ataque de riso e se atirou de bruços na banheira, fazendo grande pampeiro:

- [cantando] Mas não diga nada que me viu...[quá], e pros da pesada diz que eu vou levando!



           





You have chosen not to have a choice

[escolheste não ter escolha]



- Desculpa te acordar assim tão cedo, consciência, foi mal. Mas está tudo bem contigo? Como anda a vida? - perguntou Freud para a lente de uma câmera móvel, suspensa por um braço mecânico. Ele havia descido até o estúdio de entrevistas do Arquivo Humano, e carregara o arquivo-consciência de um antigo fazedor de filmes. O. tinha os cabelos molhados e vestia um roupão preto aveludado. Estava sentado numa velha cadeira de bar, com os braços e pernas cruzados diante do equipamento.

- Ah, eu vou bem, estou bem, obrigado por perguntar, mas... - responde a voz vinda do aparelho, enquanto o grande braço metálico se move para todos lados, apanhando diversos ângulos de Freud.

- Estás tentando me reconhecer, não é verdade, senhor gewdner? É que sou muito parecido com um amigo seu.

- É verdade, verdade. - respondeu o aparelho enquanto sossegava, estabilizando o enquadramento no rosto de O. Luan.

- Agora há pouco acabei de consultar o livro das mutações e ele me disse que era favorável ver o grande homem, e na hora que li tu me vieste à cabeça, diretor.

- Quem, eu, grande? Acho que tu se enganou, não sou grande não, não tenho nem um e oitenta...

- É a altura exata, não te preocupes. Mas o oráculo também disse que não é favorável atravessar a grande água. O que tu achas que isso quer dizer?

- Aí tu me pegou, porque acabou a água aqui em casa de manhã, veio até um povo da sanerj pra olhar, mas até agora...

- O céu e a água movimentam-se em sentido oposto: a imagem do conflito... Assim, em todas as negociações, considera, cuidadosamente, o começo... Eu estou citando o livro, diretor
 
- Sei, eu percebi, mas não sei como ajudar, não é a minha ficar interpretando muito as coisas, só faço o que acho bonito, repetir o bem feito dos filmes que a gente vê... Só que tu ainda não explicou quem tu és. De qualquer jeito tô feliz com a atenção, sério mesmo, mas, quem és...

- [cortando] Faz uma forcinha, diretor, eu sei que tu tens uma coisa importante pra me dizer, ainda que não seja consciente pra ti, só deixa vir. Pensa no ideograma 6: Sung.

- Sung é? Sunga? Bom, por acaso estou usando sunga, será isso que tu precisa ouvir?

- Não exatamente, mas obrigado por tentar... [coça o queixo - olhar pensativo]

- Então tu és o...?

- Eu sou o Freud.

- O Freud?! [risos]

- É só um nome, eu garanto, não pergunte nada da teoria porque não vou saber explicar.

- Sabe, não sei se eu iria gostar de fazer análise não, minha ingenuidade é uma das coisas mais preciosas pra mim... [risos] Ando muito filosófico esses dias porque tenho passado muito tempo sozinho, mas isso são épocas né. Épocas de ficar sozinho, épocas de ter um monte de gente em redor... Mas tu não está gravando isso, está? Bom, se estiver gravando tudo bem.

- Não estou gravando nada não, não sou jornalista, sou artista, até onde eu saiba. E completamente comprometido com minha pesquisa, o que quer dizer que estou ficando meio maluco... Ah, por falar em pesquisa, tu conheceste uma amiga nossa, a pesquisadora, não conheceste? Ela veio fazer uma entrevista contigo, fazer umas perguntas sobre uma arquiteta. O nome dela é L.

- Claro, como não, a moça albina! Ela me fez uma impressão forte, sabia muitas coisas do meu trabalho. Mas tu diz que ela queria saber de uma arquiteta é?

- As reais intenções dela era coletar informações sobre essa arquiteta, tem que ver com uma Seca que aconteceu durante a ditadura, ou sei lá. Mas como a gente não tem a consciência dessa arquiteta aqui no nosso arquivo, ela pensou que através de ti...

- Consciência no arquivo, o que tu quer dizer com isso? Que arquivo é esse?

- Nada, esquece isso, tô viajando, bicho! Tomei tanto ontem que acordei ainda bêbedo, uísque do bom, sabe? É que fui num casamento.

- Ah tá! E sabe que a pesquisadora, quando veio aqui, me trouxe uma garrafa de vinho de presente? Um merlot muito decente, diz que veio de longe...

- A L. te deu um vinho é? [risos] Que danada, ela não tinha me contado. Mas olha, diretor, eu também te trouxe um presente, por favor aceite... [estende as mãos abertas com palmas pra cima]

- Uau, que lindo, o que é isso?

- Isso é um Caldeirão de Bronze: Ting! Trouxeram lá das beiras do Rio Vermelho.

- Nossa, tu tem certeza que quer me dar isso? Parece tão valioso. E o que será que tá gravado nas laterais?

- Deste lado a gente tem o ideograma que representa o número 50. E do outro a seguinte frase, em letras douradas: Suprema boa fortuna.

- Puxa vida, agradecido, boa sorte nunca é demais né, muito obrigado mesmo, Freud. E eu que não tenho nada aqui pra ti! Nem interpretar essas coisas malucas que tu me falou eu consegui.

- Não tem problema, diretor, tu ainda vais me ajudar, mesmo que seja num momento inesperado.

- Nunca achei que um dia iria agradecer o Freud por ganhar um caldeirão dele de presente. [risos] Parece coisa de sonho isso, não parece não?

- Sim, a gente está sempre sonhando, diretor. Mas mesmo nos sonhos, a gente sempre tenta fazer o melhor que a gente pode.

- Sem dúvida.

- Ah, faltou dizer que o caldeirão representa a superestrutura cultural da sociedade. Profundo, não?

- Muito. [longo bocejo] Mas viu, Freud, eu estou enrolado com uns trabalhos aqui, montando um filme pra um amigo e... Isso! Acabei de lembrar do meu encontro com a arquiteta! Quando a coitada da pesquisadora veio aqui eu não consegui lembrar de nada, mas agora me veio à lembrança.









- Oh, por favor! Depois disso vou embora.

- Bom... Essa arquiteta não era só arquiteta, ela também era artista, só não lembro se atriz, dançarina ou escritora. Talvez ela costurasse, ou fizesse uns vídeos, eu não lembro bem. Porque parece que faz tanto, tanto tempo? Enfim, mas ela se mudou de são p. pro rio e estava com problemas de adaptação na cidade. Se tu não sabe lidar com o jeitão do povo daqui as pessoas podem ser meio ariscas, e ela tinha muita vontade de voltar. Como sou do sul, e não daqui, nossos temperamentos bateram. A gente se conheceu depois da exposição de uma amiga, numa mesa de bar, mas o ambiente estava meio carregado naquele dia, tinha uns babacas disputando sobre alguma coisa, e a gente acabou saindo mais cedo, à francesa. Fomos conversando no caminho pro metrô, e também pegamos o trem juntos, porque a gente estava indo pro mesmo lado. Daí ela me explicou um bocado de coisas da pesquisa dela lá, sobre valorização imobiliária, luta de classes, expropriação de vulneráveis, tijolos macho e fêmea... E eu ouvi aquilo do jeito que eu costumo ouvir essas coisas né, entendendo só uma parte delas, porque não consigo entender tudo de tudo, sou meio perdido... Mas tu ainda está me escutando, ô Freud?

- Claro, claro, isso é muito importante pra nós, continua por favor, diretor.

- Aí, de repente, ela tirou da bolsa uma obra de arte! Ela sacou lá um objeto da bolsa e disse que era objeto de arte, e que ele tinha um irmão gêmeo em outro lugar, daí eu olhei praquilo eu olhei e olhei...

- E que objeto era esse?

- Era uma prancheta de compensado com uma folha de papel presa pelo grampo. No papel tinha umas coisas escritas, que acho que eram uns nomes de umas organizações, com siglas... Será que era isso?

- Tu não conseguiste ler bem, diretor?

- Posso te confessar uma coisa, Freud? Eu levo as pessoas muito à sério, às vezes levo elas mais à sério do que elas levam a si mesmas, pelo menos eu sinto isso. Daí, quando ela disse que aquilo era uma peça de arte, minha vista turvou, as palavras embaralharam, entende? Não lembro o que li e o que li não entendi.

- Nossa, tu tens ideia do tamanho do que tu estás me dizendo?

- Não, por que? Tu quer o contato dela, é isso? Acho que ela continua aqui no rio.

- Não precisa, precisa não, diretor, obrigado. Nossa, o Açorian vai pular de alegria. Isso quer dizer que a arquiteta também conhecia a crítica, e quem sabe até a professora... A L. também precisa saber, um campo novo se abriu: luzes! Nós vamos sair dessa. Pelo menos enquanto eu estiver aqui no Arquivo Humano a gente pode acessar as consciências mais sensíveis à matéria e mapear aquela década inteira, inteira. Que bom que eu terminei de pintar, mas me sobram poucos dias até...

- Freud, tu tá falando sozinho, não tô entendendo nada disso que tu disse aí, posso ajudar?

- Já ajudaste demais, diretor. Agora é hora de eu ir, te deixar com seus trabalhos, em paz.

- Muito obrigado pelo caldeirão, Freud.

- [levantando-se] O que é isso, a satisfação é minha. Agora, diretor, eu vou começar uma frase dividida em 10 etapas. As primeiras cinco etapas eu vou dizer, e da sexta etapa em diante, tu o dirás. Depois de dizer as últimas palavras, quando alcançares o número dez tu adormecerás profundamente. Entendido?

- Entendido. mas duvido que tu me faça dormir assim, só com frases, quero ver e...

- [cortando] O céu é um [1]... A terra é dois [2]... O céu é três [3]...  A terra é quatro [4]... O céu é cinco [5].

[voz fraca] A terra é seis [6]... O céu é sete [7]... A terra é oito [8]... O céu é nove [9]... A terra é dez [10]. [braço que segura a lente se abaixa e o diafragma fecha]
      

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